Por que discordo da interpretação da Teoria Marxista da Dependência? Por Renato Dagnino
Renato Dagnino
O autor de “As ilusões da esquerda liberal” (https://aterraeredonda.com.br/as-ilusoes-da-esquerda-liberal/), sintetiza com propriedade a interpretação-padrão adotada pela Teoria Marxista da Dependência para explicar nossa realidade periférica.
“Dada a condição de periferia, o país entra na divisão internacional do trabalho produzindo e vendendo mercadorias de menor valor que países do centro e com uma produção que atende necessidades externas – alimentos e matérias-primas, por exemplo – e não internas.
Dessa desigualdade no intercâmbio surge uma transferência de valor da periferia para o centro, fazendo com que os países da periferia precisem compensar, de alguma forma, essa transferência de valor. Daí, então, que o capitalismo brasileiro produz a superexploração da força de trabalho. Superexploração significa superutilizar a mercadoria força de trabalho para se extrair um mais-valor excedente ainda maior, de forma a compensar aquela transferência de valor.”
Também de forma resumida, mas suficiente para evidenciar minha discordância com ela, sugiro a minha interpretação.
Os europeus que vieram conquistar o que hoje é América Latina o fizeram se apossando da terra dos indígenas, que já era cara na Europa e, escravizando-os, produziram mercadorias a um custo muito baixo que eram vendidas aos seus parentes que ficaram na Europa a um “preço internacional“.
Não é legítimo considerar que tenha havido uma imposição. Uma subordinação a uma divisão internacional do trabalho caracterizada por um intercâmbio desigual de matérias primas e produtos manufaturados.
Essa “minha“ interpretação, não atribui aos conquistadores uma condição de “subordinação”. Trata-se de uma decisão para eles muito vantajosa que não deve ser associada à noção de dependência.
Trata-se de uma opção, enquanto classe proprietária, por um tipo de funcionamento capitalista que lhe proporcionou uma taxa de lucro excepcional e constantemente reproduzida capaz de alimentar com bens e serviços (primeiro exclusivamente exógenos, depois parcialmente endógenos) aquilo que sua cultura mimética demandava.
Essa opção se reproduziu, conformando, em territórios e momentos variados, nosso tecido econômico-produtivo, cultural e sócio-político. Depois do genocídio indígena, veio a importação de africanos escravizados, de europeus expropriados pela revolução industrial, de nordestinos expulsos/“atraídos” pela expansão do capital.
O que torna nossa classe proprietária ainda mais sujeita à execração. E nos faz entender, entre outras coisas, que é essa taxa lucro, provavelmente a mais alta do mundo, que condiciona a taxa de juros que temos no país.
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