Sistema em morbidade e o estado de policrise

Este texto propõe uma reflexão sobre como as Big Techs vêm acelerando o colapso de uma era em que a linguagem, a arte, o afeto e a política ainda eram forças vivas na produção de sentido e na construção do real.

Em seu lugar, instala-se o domínio do trabalho morto — automatizado, destituído de espírito, regido por algoritmos que operam sem memória (falo de memória viva, em um sentido de conjunção afetiva) e sem desejo. Trata-se, assim, de provocar reflexões sobre o que ainda pode ser feito diante do esvaziamento da experiência humana e da captura do tempo pelo maquinismo digital. Resta-nos indagar: o que fazer com o futuro, se é que ainda nos resta algum?




Apoiando-se em autores como István Mészáros, Edgar Morin, Renato Peixoto Dagnino, Franco “Bifo” Berardi, e outros, o texto pretende problematizar tal questão como uma forma de questionar o que chamo de "efeito flautista de Hamlet”, metáfora que utilizo para o fenômeno atual de desinformação global, que cega multidões e que certamente cobrará seu preço.

Aqui me refiro a cegueira da Tecnociência Capitalista, engendrada pela lógica do lucro, cuja decorrência cognitiva ocorre predominantemente por interesses e valores capitalistas. Sua base teórica é essencialmente a Teoria da Inovação, marco referencial que invadiu as universidades com força, em especial a partir da década de 1990, com a pretensiosa missão de "salvar" as universidades das contenções orçamentárias resultantes do neoliberalismo.

É óbvio que existem pesquisadores de elevados princípios que não sucumbiram as tentações do capital, porém não podemos admitir uma postura ingênua de que somente a ética será capaz de livrar a comunidade de pesquisa dos seus 7 pecados capitais de que fala Renato Dagnino: deterioração programada, obsolescência planejada, desempenho ilusório, consumismo exacerbado, degradação ambiental, adoecimento sistêmico e sofrimento psíquico. O capitalismo é incompatível com a ética, enquanto que a tecnociência solidária utiliza a ética como falsa retórica para justificar seu trabalho.

Não se trata de desconsiderar as vantagens das inovações, tanto menos se propõe a apresentar uma visão catastrofista, mas é crucial contabilizar seus custos, já que eles ultrapassam os financeiros, incluindo aqueles relacionados à saúde e à vida.

A pós-modernidade parece ter se esquecido que a era das luzes não resultou apenas em "sucessos", mas também em "fracassos". Mais de 300 anos depois, nota-se imperiosos fracassos em áreas de grande importância, particularmente nas áreas social e ambiental. 

As críticas mais rasas consideram essa posição como sendo catastrofista, mas ela é nada mais, nada menos, que um dos sintomas da limitação cartesiana e da falência paradigmática da epistemologia de nosso tempo.

É crucial enfatizar isso, pois estamos inseridos em um cenário paradigmático que possibilita a introdução de novas demandas, que nunca foram sequer discutidas, ou colocadas sob reflexão, nos centros mais avançados da Tecnociência Capitalista, ou, pelo menos, não se tem notícia.

O estado de policrise é sintomático nesse sentido. Já dizia Antônio Gramsci em sua genialidade: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem.”

Algumas décadas atrás, o filósofo Edgar Morin, para mim um dos maiores expoentes do pensamento sistêmico, já afirmava que a ciência (aqui entendida como tecnociência) seria incapaz de definir-se a si mesma, e mais, ela é incapaz de autocrítica, coisa que somente a filosofia e a política seriam capazes de fazer. Esta também é uma das motivações desse texto. Atualmente, o pensamento sistêmico, com sua capacidade de preencher as lacunas deixadas pelo método cartesiano, nunca foi tão necessário, e por isso digo que precisa, mais do nunca, ser desenvolvido nos centros de produção de conhecimento ao redor do mundo.

Se não for o pensamento sistêmico, que seja outra forma que seja capaz de substituir, ao menos em parte, a hegemonia cartesiana.

A “ciência” da complexidade – palavra que deriva do latim “complexus” que significa “aquilo que é tecido junto” – é o conceito mais sofisticado, do ponto de vista epistemológico, sendo capaz de superar o método científico no sentido de preencher as suas limitações e lacunas. Além de comportar em sua práxis, outras metodologias, ela é capaz de analisar e descrever de forma precisa o todo em suas partes e as partes em seu todo, traçando diferenças, qualidades e limitações.

O sono profundo em que a humanidade mergulhou, ao inaugurar a era da razão instrumental cartesiana, já proporcionou e realizou muitos sonhos, mas está se transformando em grande medida em pesadelos, de maneira que, se não despertar a tempo, não existirão mais sonhos.

Não se trata de apontar problemas na inovação propriamente dita, ou ressuscitar o movimento pela "quebra das máquinas", muito menos paralisar o curso dos acontecimentos, mas urge trazer a mesa de debates, esclarecimentos necessários para a compreensão da forma como elas estão sendo concebidas, e utilizadas pelas Big Techs, sem é claro, fechar os olhos para a complexidade dos problemas. 

Refiro-me às inovações, não por (pretensiosamente) estarem em uma condição especial, mas por fazerem parte do centro de toda uma maquinaria de poder, autoritarismo, vigilância e extração de mais valia, jamais vista em toda a história da humanidade. 

É curioso como o argumento de que as tecnologias disruptivas as justificam instantaneamente pela sua capacidade de reduzir a penosidade do trabalho humano, sintoma de um mito transideológico. Contrariamente nota-se, especialmente entre os jovens, que o número de pessoas afetadas por esgotamento no trabalho cresce, o número de suicídios por depressão nunca foi tão alto, e para completar, o coeficiente de inteligência nunca foi tão baixo pelo fato de que o raciocínio não é mais exercitados como antes. Nesse sentido, podemos pergunta se humanidade resolveu regredir no tempo histórico e voltar ao início da Idade Média ou até em regimes de acumulação primitiva que antecedem o capitalismo. Menciono dessa forma não com a intenção de apoiar o conceito de tecnofeudalismo, mas de apenas ressaltar retrocessos em alguns campos. 

Vivemos um momento singular na história do capitalismo, marcado por transformações que escapam às categorias tradicionais das ciências econômicas, sobretudo àquelas ainda ancoradas no paradigma positivista ou neopositivista.

A partir de análises críticas mais refinadas e atualizadas — que rompem com esse modelo epistemológico cartesiano — evidencia-se que as crises deixaram de ser eventos cíclicos e previsíveis para assumirem uma nova natureza: múltipla, simultânea e de intensidade crescente.

Autores como István Mészáros caracterizam essa nova configuração como um estado de policrise contínua. Não se trata apenas de uma crise, mas de uma confluência de colapsos: ecológico, social, econômico, psíquico, demográfico, epistêmico, sanitário, entre outros. Essa condição aponta para a falência de um modo de produção que já não oferece respostas minimamente sustentáveis à sobrevivência da humanidade.

Estamos diante de uma crise sistêmica — cumulativa, irreversível e permanente — cujas causas são amplamente diagnosticadas, mas cujas soluções exigem não apenas reformas, e sim a invenção radical de outros modos de existir, produzir e habitar o mundo.

É esperançoso saber que há uma outra corrente contra-hegemônica, daqueles marxistas que romperam com o marxismo ortodoxo e, consequentemente, com o mito transideológico da neutralidade e do determinismo da tecnociência. Mas, lamentavelmente, o movimento ainda é muito minoritário.

Enquanto no Ocidente o capitalismo agoniza, na Ásia ele se exprime em sua mais forte pujança schumpeteriana. Lá os seus feitos parecem ser dotados de um componente mágico, mas que na real não passa de fetichismo da tecnologia, da mercadoria, reificação, consumo de massa e alienação.

Não cabe negar que é notório o fato de que a China retirou quase 800 milhões de pessoas da pobreza e de que não existe mais fome. Mas a pergunta que se deve fazer é a que custo? É preciso admitir que sua operacionalidade somente pode ser reproduzida nas suas condições muito particulares.

Enquanto isso, o "capitalismo chinês" (ou "socialismo ao modo chinês"), ainda não se mostrou capaz de resolver nem mesmo as mudanças climáticas que já assolam o planeta. Mesmo se todos os gases de efeito estufa tivessem sua emissão paralisada agora, a humanidade demoraria cerca de 10 anos para reverter os efeitos das mudanças climáticas.

 Foi na China que se inaugurou o sistema de trabalho 996, essa designação deriva da exigência de que os funcionários trabalhem das 9h às 21h, 6 dias por semana, ou seja, 72 horas por semana. Enfim, também existem aqueles que colocam a China como resposta integral, sem considerar o estado de policrise que o capitalismo promove. Do ponto de vista do paradigma econômico neopositivista a China é um sucesso, mas quando se trata de salvar o planeta é uma catástrofe.

Contudo, o objetivo desse texto não é tratar da China, mas sim levantar dois problemas paradigmáticos da periferia latino-americana. O primeiro de ordem material que se refere ao antigo problema da escassez na abundância, que se refere a economia convencional. O segundo é de ordem cognitiva, que depende de uma reformulação das agendas de ensino, pesquisa e extensão das universidades públicas e demais institutos de ensino e pesquisa, que elaboram sua própria política hegemônica. 

Diferentemente dos centros de pesquisa públicos que vivem na "pindaíba", nas Big Techs, o capital de apenas uma delas supera em muito a soma dos produtos internos brutos de vários países, e assim seu poder político possui dimensões incalculáveis, já que elas elaboram suas próprias regras e políticas de funcionamento e exercem advocacy coalitions agressivos sobre os estados nacionais.

O capitalismo, dada a sua inoperância no que se refere sequer ao incentivo do crescimento econômico sustentável ao longo do tempo nos países centrais, e menos ainda para o desenvolvimento social, econômico e ambiental, não mais voltará para aquela sua fase progressista nos séculos XVIII e XIX, de tal modo que o máximo que se tem hoje não passa de uma “transição ecológica” quase sem descarbonização e sem recuperação de florestas.

Desde que o relatório pioneiro do Clube de Roma lançou a tese sobre os limites do crescimento, diversos estudos e autores têm apontado a insustentabilidade de sistemas orientados pelo crescimento ilimitado (SCHUMACHER, 1973; GEORGESCU-ROEGEN, 1975; SIMMS, JOHNSON e CHOWLA, 2010) e defendido a lógica de se imporem limites ao crescimento (LATOUCHE, 2009; JACKSON, 2009). Nesses termos, na medida em que procura preservar a natureza sem reconhecer a prerrogativa de limitar o consumo e a expansão econômica das organizações (SHRIVASTAVA, 1995), a lógica dominante do desenvolvimento sustentável torna-se uma impossibilidade. Fonte: Por uma crítica ao conceito de desenvolvimento sustentável.

Atualmente, reconhecer essa realidade é mais lúcido e encontra embasamento científico. Enquanto a sua negação mais aproxima os que a defendem dos “negacionistas científicos”. Conforme, Krenak, entender que o capitalismo chegou ao seu limite é um questão de inteligência apenas. Como ele mesmo diz, o que sobra disso tudo é sempre vigilância e punição.

Contudo, como a lógica do capital é cruel, informação e conscientização não dá lucro. O que dá lucro mesmo, e tem encontrado ressonância é a desinformação.

Aqui precisamos esclarecer a diferença entre desinformação e fake news. A primeira nem sempre possui um caráter intencional. Ela é caracterizada por uma deturpação, reinterpretação ou alteração ou incompletude de informações que pode estar associada a diversas causas tais como, baixa escolaridade, analfabetismo funcional, ou até mesmo interesses e valores, ideologias e modos de entender o mundo que não desejam aceitar fatos que são concretos e cientificamente determinados.

A segunda é puramente intencional. Resulta de um ecossistema de desinformação financiado, com objetivos claros e definidos, muitas vezes de gerar o caos (principalmente quando se trata da politics), manchar reputações (seja de instituições ou de pessoas), de espalhar a confusão, vender, produzir domínio artificial de mercados, afetar os ativos das bolsas etc.

Aqui quero me referir a IA como um estudo de caso, devido a sua capacidade de capilarização frente a outras inovações disruptivas, dando-lhe uma potência fascinante capaz de gerar um otimismo cego. Ela pode potencializar a atividade de computadores quânticos, ML, IoT, sendo capaz de multiplicar funcionalidades de maneira quase infinita.

No caso da IA, se por um lado é capaz de substituir o trabalho humano e reduzir a penosidade do trabalho intelectual (isso não é uma ironia para muitos, mas apenas uma necessidade) ou ainda o substituir completamente por máquinas, por outro lado, ao fazê-lo ela reduz o tempo de exercício do cérebro humano, tornando-o cada vez mais destreinado. Com isso, é possível que problemas relacionados a capacidade cognitiva dos seres humanos seja cada vez mais recorrentes.

A utilização da IA como principal ferramenta de influência, tem sido feita por meio das duas formas de manipulação da opinião pública, com um método adicional que aparece sempre quem uma nova tecnologia disruptiva inicia seu ciclo de vida inovativo. Ela é o frenesi e o fetichismo que as pessoas sentem, principalmente, quando ela está em uma fase adaptativa em que se encontra atualmente.

Assim, é grande um equívoco acreditar que a IA será uma ferramenta da esquerda ou para a esquerda. Para começar ela foi concebida da direita para a direita, sob a tutela da propriedade privada, marca indelével da exploração capitalista. Sendo assim, sua concepção é intimamente ligada a interesses e valores das Big Techs. É no mínimo ingênuo acreditar que haverá uma fresta para a revolução, por inúmeros motivos de tal modo que seria impossível citá-los todos nesse texto.

Ao longo desse texto são apresentados argumentos de maneira subjetiva os quais respondem a essa questão, mas para os quantitativistas por excelência, que ainda não se convenceram nesse texto cito ao menos 3 motivos.

O primeiro deles é que o conceito de revolução sequer está na agenda da esquerda mais radical como sendo possível para época em que vivemos, apesar de ser considerado importante boa parte de seus integrantes. Ele perdeu espaço para conceitos de vertente social-democrata como o de transição ecológica, transição energética ou transição gradativa para o socialismo.

O segundo é que, até para quem não leu “Vigiar e Punir” de Michel Foucault sabe que, com a revolução 4.0 é como se o personagem fictício Big Brother da obra de George Orwell estivesse tão presente como nunca. No livro Capitalismo de desloca, Ladislau Dowbor afirma que toda forma de manifestação e mobilização nunca foi tão vigiada com as novas tecnologias, e essa será uma tendência crescente, dificultando cada vez mais esses processos.

Em terceiro podemos afirmar que os conceitos contra-hegemônicos do campo de Estudos Sociais da Política de Ciência e Tecnologia, tais como tecnologia social, tecnologias apropriadas, tecnologias inclusivas para desenvolvimento sustentável, tecnociência solidária dentre outros, só existem pelo fato de que a tecnologias não podem ser consideradas como sendo artefatos puramente de caráter instrumental. Ao serem concebidas, as tecnologias (inovações) são dotadas de política, o que significa dizer que ao serem motivadas por interesses e valores o seu resultado material (e funcional) é imanente a esses interesses e valores.

Ademais, não é possível dissociar os impactos ambientais dessas tecnologias que foram desenvolvidas pela Tecnociência Capitalista, e a subsunção da vida que elas impõem.

Pouca coisa ainda se sabe sobre os reais impactos dessa inovação, seja na vida das pessoas, na cognição, no comportamento humano, nas relações sociais, na sensibilidade e na sensitividade que são dois conceitos tratados no livro do filósofo marxista italiano Franco “Bifo” Berardi, “Fenomenologia del Fin” e que vale muito a pena ser lido.

Berardi examina como a policrise, gerada pelo capital e suas Big techs, afeta a subjetividade humana, levando a uma sensação de desespero, ansiedade e desorientação levando a um estado em que as relações humanas perdem gradativamente a “sensibilidade” e “sensitividade” que existiam antes em um período caracterizado por uma lógica da “conjunção”, para uma lógica da “conectividade”. Apesar de ter sido escrito antes do frenesi da IA, é um excelente livro que antecipa muitos dos dilemas e desafios nesse campo para a humanidade, enquanto sociedade, que assistirá (e já está assistindo) a deterioração cada vez maior das relações de solidariedade.

Assisti a excelente entrevista do cientista médico brasileiro Miguel Nicolelis, no Programa Roda Viva, e confesso que estou ansioso para ler o seu próximo livro que será lançado em breve, “Nada mais será como antes” e que será lançado no cinema.

É interessante como podemos interpretar visões distintas (entre Bifo e Nicolelis), mas que se aproximam a ponto de permitir uma analogia, quando o primeiro se refere a conjunção, o segundo fala daquilo que é uma característica do cérebro humano, ele é chamado de “analógico”, enquanto a conectividade (determinada principalmente pelas redes sociais e o mundo virtual), Nicolelis chama de “digital”, propriedade fundamental das novas tecnologias e da IA.

As redes sociais deram voz aos imbecis, como afirmou Umberto Eco, a IA - caso seja implementada da maneira que os seus criadores estão prometendo - ela será não somente a voz, mas o empoderamento deles. No frenesi, as pessoas estão utilizando não como uma ferramenta para auxiliar tarefas como escrita, mas como meios para fazê-lo integralmente. É sabido que o ato de pensar é humano, e que não poderá nunca ser substituído por uma máquina que nunca possuirá atributos humanos muito particulares, como pensamento crítico, sensibilidade, ética, empatia e criatividade.

Está muito claro que as redes sociais estão tornando as pessoas menos tolerantes, menos solidárias, mais agressivas. Os algoritmos que nelas operam ativam rotinas cerebrais mais primitivas do ser humano. Exércitos de cientistas que nelas trabalham são contratados para criar algoritmos, dispositivos e outros elementos cada vez mais viciantes e a desejar o produto de consumo cada vez mais de modo prejudicial a saúde. Da mesma forma ocorre nas indústrias digitais, de games, de alimentos ultraprocessados e em especial nas Big Techs.

Entretanto, Nicolelis apresenta uma clara filiação ao mito transideológico da neutralidade e do determinismo da Tecnociência Capitalista. Sua posição é como se criássemos um conselho dos cientistas, para orientar a política, fosse suficiente para resolver os problemas mais candentes como mudanças climáticas, questões sociais e de saúde. E pior, ela estaria acima da política.

O outro equívoco é o não reconhecimento de que o apartamento entre ciência e tecnologia é um dado que precisa ser questionado. Seu reconhecimento reside primeiro na necessidade de romper com aqueles dois mitos transideológicos: a neutralidade e o determinismo.

Discordamos prontamente dessa posição, principalmente se ela for implementada dentro da Tecnociência Capitalista, com os princípios e valores: cientificismo, produtivismo, empreendedorismo individual e inovacionismo.

Vale mencionar o livro, "Mercants of Doubt", ele trata da análise da influência de cientistas e think tanks na formação da opinião pública e nas políticas governamentais sobre questões ambientais e de saúde.

Os autores, Naomi Oreskes e Erik M. Conway, investigam como alguns cientistas e grupos de reflexão têm sido (ou foram) pagos por empresas para criar dúvidas sobre os impactos nocivos de produtos químicos, alimentos e mudanças climáticas.

O movimento tocado por uma minoria de capitalistas, e engendrado pelos “Engenheiros do Caos” – outro livro que indico fortemente para esse debate, de autoria de Juliano da Empoli - que financiam os ecossistemas de desinformação, que está manipulando a opinião de bilhões de pessoas ao redor do mundo, para negar a crise climática, o fazem de forma muito bem calculada.

O motivo que os leva ao “negacionismo climático” e a destruição antropogênica da natureza é somente um. O capitalismo está morrendo, e para eles é preciso salvá-lo, mesmo que isso custe a vida de bilhões de pessoas. Mesmo que isso custe a sexta extinção em massa de milhões de espécies de flora e fauna ao redor do globo.

Eles são os mesmos que imprimem a falsa ideologia do “desenvolvimento” nas políticas dos países e os mesmos que defendem a disseminação de Data Centers (DC) ao redor do planeta, financiados por megaprojetos de bancos privados.

Menciono DC pois é a tecnologia responsável por armazenar dados da IA, Machine Learning, Internet of things, sem ela as outras praticamente seriam inviáveis. Contudo, é preciso ressaltar que os DC nada contribuem para o desenvolvimento social e econômico de um País. Mais do que isso, possuem um potencial de destruição da natureza e consumo avassalador de recursos como energia e água. Os adjetivos utilizados para perfumar essa tecnologia tais como “inteligentes” e “sustentáveis”, “comunitários” e “solidários” não serão capazes de limpar sua reputação.

A neurose capitalista também se arvora a continuar explorando minerais de terras raras, aplicando suas espertezas, em países do Sul Global, disseminando a sua necropolítica para construção de usinas hidrelétricas faraônicas, deixando sem lar, sem saúde e sem dignidade, milhares de indígenas e outros povos tradicionais, em todos os países em que a fúria de multiplicação e acumulação do capital puder expandir.


Urge implementar não apenas conceitos rasos de “novas economias”, mas em economia solidária, com base em organização autogestionária dos trabalhadores e propriedade coletiva dos meios de produção, o que não implicaria exatamente na extinção da organização heterogestionária reproduzida pela empresa privada, mas na implementação de fortes incentivos para o desenvolvimento de cooperativas e associações solidárias. Nesse novo paradigma, será fundamental também uma nova plataforma cognitiva de lançamento dessa Economia Solidária, a Tecnociência Solidária, mas isso é assunto para um outro texto.

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